Quando uma criança deve ser levada para consultar um neuropediatra? Parte 2

Autismo, TDAH, atraso da fala e dificuldades escolares


Quando o atraso da fala deve preocupar?

O desenvolvimento da linguagem varia de uma criança para outra. Algumas falam mais cedo, outras um pouco mais tarde. Entretanto, existem marcos do desenvolvimento que ajudam os médicos a identificar quando uma avaliação é recomendada.

De maneira geral, merece atenção quando a criança:

  • não balbucia por volta dos 9 meses;
  • não fala palavras com significado por volta dos 16 meses;
  • não combina duas palavras espontaneamente por volta dos 24 meses;
  • apresenta dificuldade importante para compreender comandos simples;
  • perde palavras que já utilizava.

É importante destacar que a linguagem envolve muito mais do que falar.

Antes mesmo das primeiras palavras, a criança já se comunica por meio de:

  • contato visual;
  • sorriso social;
  • gestos;
  • apontar para mostrar interesse;
  • imitação;
  • atenção compartilhada.

Esses comportamentos fornecem informações extremamente importantes sobre o desenvolvimento cerebral.


Nem todo atraso da fala significa autismo

Esse talvez seja um dos maiores mitos que chegam ao consultório.

Uma criança pode apresentar atraso da linguagem por diversas razões, incluindo:

  • Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL);
  • deficiência auditiva;
  • prematuridade;
  • deficiência intelectual;
  • alterações motoras da fala;
  • fatores ambientais;
  • Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Por esse motivo, o diagnóstico não pode ser feito apenas observando se a criança fala pouco.

O neuropediatra avalia todo o desenvolvimento, o comportamento, a interação social e o histórico clínico antes de levantar hipóteses diagnósticas.


Quando pensar em autismo?

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na comunicação social e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento.

Os sinais podem aparecer ainda no primeiro ou segundo ano de vida.

Alguns exemplos incluem:

Comunicação

  • atraso importante da linguagem;
  • pouca intenção de comunicar;
  • dificuldade para manter conversas;
  • ecolalia persistente;
  • pouco uso de gestos.

Interação social

  • reduzido contato visual espontâneo;
  • dificuldade em compartilhar interesses;
  • pouca resposta ao nome;
  • menor interesse em brincadeiras sociais;
  • dificuldade em compreender emoções e expressões faciais.

Comportamentos repetitivos

  • movimentos repetitivos;
  • forte necessidade de rotina;
  • interesses muito específicos;
  • hipersensibilidade ou hipossensibilidade a sons, texturas ou luzes.

É importante lembrar que nenhum desses sinais, isoladamente, confirma o diagnóstico.

O diagnóstico do TEA é clínico e deve ser realizado por profissionais capacitados, considerando a história completa da criança e a observação do comportamento.


“Meu filho olha nos olhos. Então ele não pode ter autismo?”

Essa é uma dúvida muito frequente.

A resposta é não.

O contato visual, sozinho, não confirma nem exclui o diagnóstico de autismo.

Muitas crianças com TEA apresentam contato visual em algumas situações.

Da mesma forma, crianças sem autismo podem evitar olhar diretamente nos olhos por timidez, ansiedade ou características individuais.

Por isso, durante a consulta, o neuropediatra nunca avalia apenas um comportamento isolado. O diagnóstico depende da análise conjunta de diversos aspectos do desenvolvimento.


TDAH: muito além da hiperatividade

Outro motivo muito comum para procurar um neuropediatra é a suspeita de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Existe um equívoco bastante difundido de que o TDAH significa apenas “criança agitada”.

Na realidade, o transtorno envolve principalmente dificuldades na autorregulação.

Isso inclui alterações em funções executivas como:

  • manter a atenção de forma sustentada;
  • controlar impulsos;
  • organizar tarefas;
  • planejar atividades;
  • controlar emoções;
  • persistir em objetivos de longo prazo;
  • evitar distrações.

A hiperatividade pode estar presente, mas nem sempre é o principal sintoma.


Quando suspeitar de TDAH?

Alguns comportamentos merecem investigação quando persistem por meses, ocorrem em diferentes ambientes (como casa e escola) e causam prejuízo significativo.

Entre eles:

  • dificuldade importante para manter a atenção;
  • esquecer materiais escolares com frequência;
  • perder objetos repetidamente;
  • dificuldade em concluir tarefas;
  • impulsividade;
  • inquietação excessiva;
  • dificuldade para esperar sua vez;
  • prejuízo no rendimento escolar.

O diagnóstico não depende de um único teste ou exame de imagem. Ele é baseado em uma avaliação clínica detalhada, complementada por informações da família e da escola.


Toda dificuldade escolar é TDAH?

Não.

Essa é uma das conclusões mais importantes da avaliação neuropediátrica.

Uma criança pode apresentar dificuldades na escola por diversos motivos, como:

  • transtornos específicos de aprendizagem;
  • ansiedade;
  • deficiência visual ou auditiva;
  • alterações do sono;
  • dificuldades emocionais;
  • deficiência intelectual;
  • transtornos da linguagem;
  • ensino inadequado;
  • TDAH;
  • TEA.

Por isso, tratar todas as dificuldades escolares como TDAH pode atrasar o diagnóstico correto.


Dificuldade para aprender merece investigação?

Sim.

Especialmente quando existe uma diferença importante entre o potencial da criança e seu desempenho escolar.

Alguns sinais incluem:

  • dificuldade persistente para aprender a ler;
  • escrita muito abaixo do esperado;
  • erros matemáticos importantes;
  • lentidão excessiva;
  • dificuldade para compreender textos;
  • necessidade constante de ajuda para realizar tarefas simples.

Uma avaliação adequada permite identificar quais fatores estão contribuindo para essas dificuldades e definir a melhor estratégia de intervenção.


O neuropediatra trata apenas doenças?

Não.

Essa talvez seja uma das maiores mudanças da neuropediatria moderna.

Hoje sabemos que o neuropediatra também atua de forma importante no acompanhamento do desenvolvimento infantil, auxiliando famílias e escolas a compreenderem como a criança aprende, se comunica e se desenvolve.

Em muitos casos, a principal contribuição não é prescrever medicamentos, mas orientar a família, indicar intervenções baseadas em evidências e acompanhar a evolução da criança ao longo do tempo.


Quando procurar ajuda sem esperar?

Embora muitas situações possam ser acompanhadas de forma programada, alguns sinais justificam avaliação mais rápida:

  • perda de habilidades já adquiridas;
  • crises convulsivas;
  • regressão da linguagem;
  • alteração importante do nível de consciência;
  • fraqueza muscular progressiva;
  • dificuldade súbita para caminhar;
  • dores de cabeça acompanhadas de vômitos persistentes ou alterações neurológicas.

Nesses casos, a avaliação médica não deve ser adiada.


Conclusão da Parte 2

Autismo, TDAH, atraso da linguagem e dificuldades escolares estão entre os principais motivos que levam famílias ao consultório do neuropediatra.

O mais importante é lembrar que nenhum desses diagnósticos pode ser estabelecido apenas por um único sintoma, por um exame isolado ou por informações encontradas na internet.

Uma avaliação completa considera o desenvolvimento da criança, sua história clínica, o contexto familiar e escolar e utiliza critérios diagnósticos reconhecidos internacionalmente.

Na próxima parte, abordaremos outras situações frequentes em neuropediatria, como epilepsia, cefaleias, distúrbios do sono, tiques, doenças neuromusculares e quando é necessário realizar exames como eletroencefalograma (EEG) e ressonância magnética.

Comente aqui!

Descubra mais sobre Dr Fabio Agertt

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo