Atraso na Fala: Quando se Preocupar e Procurar Ajuda?

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“Cada criança tem seu tempo.” Até que ponto isso é verdade?

Poucas frases tranquilizam tanto os pais quanto ouvir que “cada criança tem seu ritmo”. E, de fato, isso é verdade. Nenhuma criança aprende exatamente na mesma velocidade que outra. Algumas começam a andar aos 10 meses, outras aos 15. Algumas dizem as primeiras palavras antes do primeiro aniversário; outras demoram um pouco mais.

Entretanto, existe um limite importante entre uma variação normal do desenvolvimento e um atraso que merece investigação.

Esperar indefinidamente, acreditando que “uma hora ele fala”, pode fazer com que uma criança deixe de receber uma avaliação e uma intervenção justamente no período em que o cérebro é mais capaz de aprender e reorganizar suas conexões.

A boa notícia é que a maioria das crianças com atraso na fala não apresenta uma doença grave. Muitas têm apenas um ritmo diferente de desenvolvimento. Porém, algumas podem estar manifestando precocemente condições como perda auditiva, transtorno do desenvolvimento da linguagem (TDL), transtorno do espectro autista (TEA), deficiência intelectual ou outras alterações do neurodesenvolvimento.

O grande desafio é distinguir essas situações.

É justamente esse o objetivo da avaliação neuropediátrica.


Antes de falar, o cérebro aprende a se comunicar

Quando pensamos em linguagem, geralmente imaginamos apenas as palavras. No entanto, falar é apenas a etapa mais visível de um processo que começou muitos meses antes.

Desde os primeiros meses de vida, o cérebro da criança está desenvolvendo habilidades fundamentais, como:

  • reconhecer a voz dos pais;
  • diferenciar sons da fala;
  • compreender expressões faciais;
  • estabelecer contato visual;
  • alternar o olhar entre pessoas e objetos;
  • compartilhar atenção;
  • compreender o significado das palavras;
  • associar sons a pessoas e objetos.

Essas habilidades formam a base sobre a qual a linguagem será construída.

Por isso, uma criança pode ainda não falar, mas estar demonstrando excelente desenvolvimento da comunicação.


Comunicação não é apenas falar

Muitos pais chegam ao consultório preocupados porque o filho ainda não fala.

A primeira pergunta, porém, costuma ser outra:

Como essa criança se comunica?

Uma criança pode comunicar-se muito bem antes de pronunciar qualquer palavra.

Ela pode:

  • apontar para pedir um brinquedo;
  • mostrar um objeto que achou interessante;
  • olhar para os pais para compartilhar uma descoberta;
  • balançar a cabeça para dizer “sim” ou “não”;
  • imitar gestos;
  • estender os braços para pedir colo;
  • levar um adulto até aquilo que deseja.

Esses comportamentos demonstram intenção comunicativa, um aspecto extremamente importante do desenvolvimento.

Na avaliação neuropediátrica, muitas vezes essa informação é mais relevante do que simplesmente contar quantas palavras a criança consegue dizer.


Existe uma idade “certa” para começar a falar?

Não existe um dia exato.

Existe uma faixa de desenvolvimento esperada, construída a partir de estudos realizados com milhares de crianças em diferentes países.

Esses marcos ajudam médicos e famílias a identificar quando o desenvolvimento está ocorrendo dentro da normalidade e quando merece uma avaliação mais cuidadosa.

Até os 6 meses

Nesta fase, espera-se que o bebê:

  • sorria durante as interações;
  • produza sons variados;
  • emita balbucios;
  • demonstre interesse pela voz dos pais;
  • responda a estímulos sonoros.

Embora ainda não existam palavras, o cérebro está aprendendo os sons da língua materna.


Entre 9 e 12 meses

A comunicação evolui rapidamente.

Espera-se observar:

  • resposta ao próprio nome;
  • balbucio mais rico e variado;
  • gestos sociais, como dar tchau;
  • apontar para objetos de interesse;
  • compreensão de palavras simples;
  • primeiras palavras com significado, como “mamã”, “papá”, “au-au”.

Nem toda criança dirá palavras exatamente aos 12 meses, mas espera-se que demonstre intenção de se comunicar.


Aos 18 meses

Esse costuma ser um período de grande crescimento do vocabulário.

Em média, a criança apresenta:

  • aproximadamente 20 a 50 palavras;
  • capacidade de compreender muito mais palavras do que consegue falar;
  • identificação de objetos familiares;
  • compreensão de ordens simples;
  • início da nomeação de pessoas e objetos.

É comum que algumas palavras ainda sejam pronunciadas de forma incompleta.


Aos 2 anos

Os dois anos representam um marco importante no desenvolvimento da linguagem.

Nessa idade, espera-se que a criança:

  • utilize cerca de 50 a 200 palavras;
  • combine duas palavras espontaneamente (“quer água”, “mamãe vem”);
  • compreenda comandos simples;
  • consiga pedir objetos utilizando palavras;
  • seja entendida pelos familiares em boa parte do tempo.

A ausência de frases espontâneas de duas palavras aos 24 meses merece investigação.


Entre 3 e 4 anos

A linguagem torna-se muito mais elaborada.

A criança costuma:

  • construir frases completas;
  • fazer perguntas;
  • contar pequenas histórias;
  • conversar sobre acontecimentos recentes;
  • ser compreendida pela maior parte das pessoas, inclusive fora do ambiente familiar.

Nessa fase, dificuldades importantes de comunicação já tendem a ser bastante perceptíveis.


O que é considerado uma variação normal?

Essa é provavelmente a pergunta que mais escuto dos pais.

Nem todo atraso significa doença.

Algumas crianças apresentam um desenvolvimento global adequado, interagem normalmente, compreendem muito bem o que lhes é dito, brincam de faz de conta, apontam para compartilhar interesses e apenas demoram um pouco mais para começar a falar.

Essas crianças são conhecidas na literatura científica como Late Talkers (“falantes tardios”).

Estudos mostram que cerca de 10% a 20% das crianças aos 2 anos apresentam atraso isolado da linguagem expressiva.

A boa notícia é que uma parcela significativa delas alcançará seus colegas nos anos seguintes, especialmente quando apresenta boa compreensão da linguagem, interação social preservada e desenvolvimento global adequado.

Entretanto, isso não significa que devamos simplesmente esperar.

Pesquisas demonstram que parte dessas crianças continuará apresentando dificuldades de linguagem, alfabetização ou aprendizagem na idade escolar. Por isso, o acompanhamento profissional é importante, mesmo quando a evolução inicial parece favorável.


O desenvolvimento não depende apenas do número de palavras

Uma criança que fala apenas dez palavras pode estar evoluindo muito bem.

Outra que fala cinquenta palavras pode apresentar sinais que merecem investigação.

Isso acontece porque o desenvolvimento da linguagem envolve muito mais do que o vocabulário.

Durante a consulta, observamos perguntas como:

  • A criança olha quando é chamada?
  • Compartilha interesses?
  • Aponta para mostrar objetos, e não apenas para pedir?
  • Entende ordens simples?
  • Imita gestos?
  • Brinca de faz de conta?
  • Demonstra curiosidade pelas pessoas?
  • Aprende palavras novas com facilidade?

Esses aspectos ajudam a compreender como o cérebro está desenvolvendo suas habilidades de comunicação.

É por isso que dois pacientes com a mesma quantidade de palavras podem ter avaliações completamente diferentes.


A mensagem mais importante para os pais

Se existe uma recomendação que mudou na Neuropediatria nas últimas décadas, ela é esta:

Não espere uma criança “falar quando quiser” sem antes entender como está todo o seu desenvolvimento.

Na maioria das vezes, a avaliação traz tranquilidade para a família. Em outras, permite identificar precocemente dificuldades que podem se beneficiar de intervenção.

Avaliar cedo não significa rotular uma criança. Significa compreender como ela está se desenvolvendo e oferecer as melhores oportunidades para que alcance todo o seu potencial.

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