Acordar pode parecer uma tarefa simples, mas, para algumas crianças, a transição entre o sono e o estado de vigília pode ser mais difícil.
Alguns pais descrevem a mesma situação: a criança acorda, mas demora muito para levantar, parece irritada, não consegue iniciar a rotina, precisa de vários comandos ou aparenta estar “desligada”.
Isso nem sempre significa preguiça, falta de vontade ou desobediência.
O que acontece com o cérebro depois de acordar?
Ao despertar, o cérebro precisa passar progressivamente por diferentes estados:
sono → vigília → atenção → ação.
Essa transição envolve sistemas relacionados ao estado de alerta, atenção, motivação e funções executivas.
Em algumas crianças, especialmente quando existem dificuldades relacionadas ao sono, essa passagem pode ser mais lenta ou menos eficiente.
Por isso, uma criança pode saber exatamente o que precisa fazer e, mesmo assim, ter dificuldade para começar.
Sono insuficiente pode afetar o comportamento
Dormir pouco ou ter sono de baixa qualidade pode repercutir durante o dia.
A criança pode apresentar:
- maior irritabilidade;
- dificuldade de atenção;
- menor capacidade de autorregulação;
- dificuldade para iniciar tarefas;
- alterações de memória e aprendizagem;
- maior sonolência ou lentidão pela manhã.
Em crianças com TDAH, essa relação merece atenção especial. Estudos mostram associação entre TDAH, alterações do sono, funções executivas e desempenho durante o dia.
Isso não significa que toda criança que tem dificuldade para acordar tenha TDAH. O sono inadequado também pode produzir sintomas semelhantes aos observados em transtornos do neurodesenvolvimento.
Antes de pensar em “preguiça”, observe o sono
Algumas perguntas podem ajudar:
A criança dorme horas suficientes para sua idade?
Os horários de dormir e acordar são relativamente previsíveis?
Ela demora muito para pegar no sono?
Há exposição a telas próximo do horário de dormir?
A rotina de sono muda muito nos finais de semana?
A dificuldade para acordar acontece todos os dias?
Essas informações podem ser importantes durante uma avaliação neuropediátrica.
Pequenas mudanças podem ajudar
Uma rotina mais previsível pode facilitar a transição entre sono e vigília.
Algumas medidas simples incluem:
- manter horários de sono relativamente regulares;
- favorecer exposição à luz natural pela manhã;
- reduzir telas próximo ao horário de dormir;
- estabelecer uma rotina noturna consistente;
- utilizar instruções curtas e objetivas pela manhã;
- deixar mochila, roupas e outros itens preparados na noite anterior.
A ideia não é transformar a manhã em uma sequência de cobranças, mas reduzir a quantidade de decisões que a criança precisa tomar logo após acordar.
Quando procurar avaliação?
Se a dificuldade para acordar é persistente, interfere na rotina familiar ou escolar, vem acompanhada de sonolência excessiva, irritabilidade, dificuldades de atenção, ronco, despertares frequentes ou outros sinais de alteração do sono, vale conversar com o pediatra ou neuropediatra.
Também é importante investigar quando a criança apresenta dificuldades persistentes de atenção, organização, controle inibitório ou início de tarefas em diferentes ambientes.
Nem sempre é falta de vontade
Comportamentos difíceis podem ser a manifestação de uma dificuldade que a criança ainda não consegue explicar.
Antes de dizer “ele não quer”, talvez seja importante perguntar:
“O que está tornando isso difícil para ele?”
Observar. Entender. Investigar.
Porque quando compreendemos melhor o funcionamento do cérebro infantil, podemos substituir cobranças por estratégias mais adequadas.
Sono adequado também faz parte do cuidado com o neurodesenvolvimento.
@neuroneo

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