Essa é uma pergunta frequente entre pais e profissionais que acompanham o desenvolvimento infantil.
A resposta exige uma distinção fundamental: identificar características precoces do desenvolvimento não é o mesmo que diagnosticar autismo em um bebê.
O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças persistentes na comunicação e interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Entretanto, as manifestações clínicas podem surgir de maneira gradual e apresentam grande heterogeneidade entre as crianças.
Por isso, a investigação científica tem buscado compreender quais características observáveis nos primeiros meses e anos de vida podem estar associadas a trajetórias posteriores de desenvolvimento.
Um estudo publicado em setembro de 2026 no periódico Clinical Psychological Science contribui para essa discussão ao investigar perfis de temperamento em bebês com diferentes probabilidades familiares de autismo e TDAH. (Associação de Ciência Psicológica)
O que é temperamento?
Temperamento corresponde a diferenças individuais relativamente precoces na maneira como a criança reage aos estímulos, regula suas emoções, direciona sua atenção e interage com o ambiente.
Ele não é sinônimo de personalidade e, principalmente, não é um diagnóstico médico.
Entre os aspectos estudados estão características relacionadas à reatividade emocional, capacidade de regulação, aproximação social, nível de atividade e resposta a estímulos novos.
Essas características começam a ser observadas muito cedo e podem sofrer mudanças importantes ao longo do desenvolvimento.
Por isso, estudar o temperamento pode ajudar os pesquisadores a compreender melhor como diferentes trajetórias do desenvolvimento se relacionam posteriormente com características do neurodesenvolvimento.
O que o novo estudo investigou?
Kadlaskar e colaboradores analisaram dados de estudos longitudinais realizados na University of California, Davis, acompanhando bebês com e sem histórico familiar de autismo ou TDAH.
Os pesquisadores utilizaram medidas de temperamento aos 12 e 18 meses e empregaram métodos estatísticos para identificar diferentes perfis de funcionamento.
A análise identificou três grupos principais de temperamento em cada faixa etária. De maneira geral, a maioria das crianças permaneceu em um perfil caracterizado por boa regulação e maior engajamento social.
Em contraste, uma parcela menor apresentou trajetórias caracterizadas por maior reatividade negativa, inibição e/ou menor engajamento social durante o período de desenvolvimento observado. (Associação de Ciência Psicológica)
Esses resultados são interessantes porque mostram que o desenvolvimento infantil não ocorre por uma única trajetória.
Esses comportamentos significam autismo?
Não.
Essa é provavelmente a principal mensagem clínica a ser destacada.
O estudo encontrou associações entre determinados perfis temperamentais e características posteriores relacionadas ao autismo e ao TDAH. Entretanto, nem todas as crianças que posteriormente preencheram critérios para autismo apresentaram, nos primeiros anos, o perfil de temperamento considerado de maior risco.
Da mesma forma, determinados perfis temperamentais também foram observados em crianças que não apresentaram posteriormente um diagnóstico de autismo ou TDAH.
Isso demonstra uma característica fundamental do desenvolvimento infantil:
Um comportamento isolado raramente possui especificidade suficiente para estabelecer um diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento.
Os autores ressaltam justamente a heterogeneidade das trajetórias observadas. (Associação de Ciência Psicológica)
Então, quais sinais merecem atenção?
A avaliação do desenvolvimento deve ser muito mais ampla do que procurar uma lista de “sinais de autismo”.
Nos primeiros anos de vida, é importante observar a evolução de diferentes domínios, incluindo:
Comunicação
Como o bebê utiliza sons, gestos, expressões faciais e, posteriormente, palavras para se comunicar?
Interação social
Como responde às pessoas? Demonstra interesse por interações sociais? Compartilha experiências com os cuidadores?
Atenção compartilhada
Há progressão na capacidade de compartilhar atenção com outra pessoa, acompanhar o olhar ou utilizar gestos para mostrar interesse?
Brincadeira
Como a criança explora objetos e, posteriormente, desenvolve formas mais elaboradas de brincadeira?
Regulação emocional
Como reage a mudanças, frustrações e diferentes estímulos ambientais?
Desenvolvimento global
As diferentes habilidades estão evoluindo de maneira progressiva ou existe uma preocupação persistente em algum domínio?
O mais importante não é apenas “qual comportamento o bebê apresenta?”, mas também como esse comportamento evolui ao longo do tempo.
E o papel do olhar e da interação social?
Diferenças na interação social estão entre os aspectos que vêm sendo estudados como possíveis marcadores precoces do autismo.
Entretanto, também nesse contexto é necessário cautela.
Um bebê pode apresentar períodos de menor contato visual, menor interesse social ou maior irritabilidade por diversas razões, incluindo diferenças individuais de temperamento, sono, estado emocional, contexto ambiental e outras condições do desenvolvimento.
Por isso, um único comportamento não deve ser utilizado isoladamente para concluir que existe autismo.
A avaliação ganha maior significado quando diferentes informações são integradas e quando existe uma trajetória persistente de diferenças no desenvolvimento.
O diagnóstico precoce é possível?
Sim, em algumas crianças o diagnóstico de autismo pode ser estabelecido ainda nos primeiros anos de vida.
Mas isso não significa que todos os sinais estejam presentes durante o primeiro ano ou que seja possível prever com precisão o diagnóstico futuro a partir do temperamento de um bebê.
Existe uma diferença importante entre:
identificar uma criança que merece acompanhamento do desenvolvimento
e
afirmar que ela necessariamente desenvolverá autismo.
A primeira abordagem é clinicamente útil.
A segunda pode gerar ansiedade e não é sustentada pelos resultados desse estudo.
Por que a avaliação precoce é importante?
Quando existem preocupações persistentes sobre o desenvolvimento, esperar simplesmente que “a criança amadureça” pode atrasar a identificação de necessidades importantes.
A avaliação precoce permite acompanhar a evolução das habilidades e, quando necessário, investigar diferentes áreas do neurodesenvolvimento.
Além disso, a identificação de dificuldades não significa necessariamente estabelecer imediatamente um diagnóstico definitivo.
Em muitos casos, o mais adequado é realizar vigilância do desenvolvimento, avaliação clínica e acompanhamento longitudinal.
Essa abordagem permite observar como as habilidades evoluem e identificar precocemente quando uma intervenção ou investigação mais aprofundada se torna necessária.
O que esse novo estudo acrescenta?
O trabalho de Kadlaskar e colaboradores reforça uma ideia cada vez mais importante na neurociência do desenvolvimento:
o desenvolvimento infantil é heterogêneo.
Não existe uma única trajetória que leve ao autismo ou ao TDAH.
Algumas crianças podem apresentar diferenças muito precoces. Outras podem apresentar características mais sutis inicialmente e manifestações mais evidentes posteriormente.
E algumas crianças que apresentam determinados perfis temperamentais precoces não desenvolverão nenhum desses transtornos.
Por isso, pesquisas sobre temperamento são importantes não para criar uma nova “lista de sinais de autismo”, mas para compreender melhor como diferentes trajetórias de desenvolvimento se organizam ao longo dos primeiros anos de vida.
Quando procurar avaliação?
Pais e cuidadores devem conversar com o pediatra ou neuropediatra quando houver uma preocupação persistente com a comunicação, interação social, linguagem, comportamento ou aquisição de habilidades.
Também merece atenção uma perda de habilidades que já haviam sido adquiridas, independentemente da idade.
A avaliação profissional deve considerar a história do desenvolvimento, observação clínica, informações dos cuidadores e, quando necessário, instrumentos específicos de rastreamento e avaliação do desenvolvimento.
Diagnóstico precoce não significa diagnosticar antes da hora
Essa talvez seja a principal mensagem.
Diagnóstico precoce não significa transformar qualquer comportamento do bebê em um diagnóstico.
Significa reconhecer quando existem diferenças persistentes ou preocupações relevantes e não esperar passivamente quando o desenvolvimento merece investigação.
Quanto mais cedo compreendemos as necessidades de uma criança, mais cedo podemos oferecer o acompanhamento adequado.
E, principalmente, podemos substituir a ansiedade causada por listas de sinais isolados por uma abordagem baseada em desenvolvimento, contexto, acompanhamento e evidências científicas.
Nem todo sinal precoce é autismo. Mas toda preocupação persistente com o desenvolvimento merece ser observada.
Referência principal
Kadlaskar G, Iosif AM, Ozonoff S, Miller M. Identification of Early Temperament Profiles in Infants at Elevated Likelihood for Autism and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder. Clinical Psychological Science. 2026;14(5):556-574. doi:10.1177/21677026251365933.

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