Autismo e epilepsia podem coexistir, mas isso não significa que toda criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) precise realizar um eletroencefalograma (EEG).
Essa é uma dúvida bastante frequente entre famílias e merece uma resposta baseada em evidências: o EEG não deve ser solicitado rotineiramente apenas pelo diagnóstico de autismo. A indicação deve partir da história clínica, do exame neurológico e da presença de sinais que levantem suspeita de epilepsia.
Autismo aumenta o risco de epilepsia?
Sim. A epilepsia ocorre com maior frequência em pessoas com TEA do que na população geral. Esse risco não é igual para todas as crianças e pode ser influenciado por fatores como deficiência intelectual, determinadas condições genéticas e outras características clínicas.
Mas é importante fazer uma distinção:
associação não significa causalidade.
O autismo não deve ser entendido como uma causa direta de epilepsia. Em algumas crianças, as duas condições podem estar relacionadas a mecanismos genéticos ou neurológicos compartilhados.
Por isso, o diagnóstico de TEA, isoladamente, não é uma indicação automática para EEG.
Por que não fazer EEG em todas as crianças autistas?
Um dos motivos é que alterações eletroencefalográficas podem ser encontradas em crianças com TEA mesmo quando elas nunca apresentaram uma crise epiléptica.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou alterações no EEG em uma proporção bastante variável de pessoas com TEA, mas a relação dessas alterações com sintomas específicos do autismo permanece incerta. Os autores concluíram que o EEG de rotina para todas as crianças com TEA parece desnecessário e deve ser considerado principalmente quando existe suspeita clínica de epilepsia.
Isso é importante porque um EEG alterado não é sinônimo de epilepsia.
O exame precisa ser interpretado dentro do contexto clínico da criança.
Quando o EEG pode ser indicado?
A investigação deve ser considerada quando existem episódios que podem representar crises epilépticas, por exemplo:
- episódios súbitos e repetitivos, sempre com características semelhantes;
- períodos de alteração ou perda de consciência;
- olhar fixo ou interrupção abrupta da atividade, especialmente quando há outros sinais associados;
- movimentos involuntários estereotipados que levantem suspeita de crise;
- episódios suspeitos durante o sono;
- perda inexplicada de habilidades já adquiridas;
- regressão atípica da linguagem ou de outras funções;
- outros sinais neurológicos que indiquem investigação.
A Academia Americana de Pediatria recomenda que crianças com TEA tenham acompanhamento atento para possíveis crises e que o EEG seja utilizado quando houver indicação clínica. Em situações específicas de regressão de linguagem tardia ou atípica, pode ser necessário um EEG prolongado, inclusive durante o sono.
Nem todo comportamento repetitivo é uma crise
Esse é um dos principais desafios.
Crianças autistas podem apresentar movimentos repetitivos, estereotipias, episódios de olhar fixo, alterações comportamentais e outras manifestações que podem ser confundidas com crises epilépticas.
Da mesma forma, algumas crises epilépticas podem ser discretas e não necessariamente apresentar a imagem clássica de uma convulsão com queda e movimentos generalizados.
Por isso, a descrição detalhada do episódio é fundamental.
Quando possível, um vídeo feito pelos familiares pode ajudar o neuropediatra a compreender o evento e decidir se há necessidade de investigação complementar.
E quando existe perda de habilidades?
A perda de habilidades adquiridas merece atenção especial.
Uma regressão do desenvolvimento pode ocorrer em diferentes situações e não significa automaticamente epilepsia. Entretanto, quando existe uma perda inexplicada de linguagem, comportamento ou outras habilidades, especialmente quando acompanhada de episódios suspeitos, a avaliação neurológica pode indicar a realização de EEG, inclusive com registro durante o sono em situações selecionadas.
Observe → Reconheça → Investigue
Uma criança com autismo pode apresentar epilepsia e, por isso, famílias e profissionais devem conhecer os sinais de alerta.
Mas também não é necessário transformar o diagnóstico de TEA em uma indicação automática para uma série de exames.
Nem todo autista precisa de EEG. Mas toda criança autista merece que possíveis crises sejam reconhecidas.
A avaliação individualizada permite decidir se o EEG é necessário, qual modalidade é mais adequada e quais outras investigações podem fazer sentido para aquela criança.
Referências principais: American Academy of Pediatrics; Loussouarn et al., Expert Review of Neurotherapeutics, 2019; revisão sistemática sobre EEG no TEA, 2025.

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